My Life Without You
Dezembro 31, 2008
Um Minuto de Silêncio a 2008
Dezembro 27, 2008
Do disco “Buy Now…Saved Later” dos One Minute Silence

Mecanismo do Medo
Dezembro 27, 2008
Se não existisse atirávamo-nos da ponte abaixo.
Peluche Selvagem
Dezembro 26, 2008

“Esta palavra igual, espaçada sem espaço, afirmando por baixo de qualquer afirmação, que é impossível negar, demasiado frágil para ser calada, dócil demais para ser contida, que não diz qualquer coisa, falando apenas, falando sem vida, sem voz, com uma voz mais baixa que qualquer voz: viva por entre os mortos, morta entre os vivos, apelando à morte, à ressurreição para morrer, chamando sem apelo.”
Maurice Blanchot
Chega devagar com a voz rouca lamentando a calçada,
o mundo vomitou-o numa rua enlamada.
Levanta-te, faz as malas e já podes adormecer com o respirar a arfar de fome,
que é mais do que fome, é mais do que a tua pele suada e até mais do que carne colada aos ossos
é pêlo macio de peluche selvagem.
SiLêncio,
vamos brincar

Gosto de ti assim, estranha
Dezembro 24, 2008

Lisboa, 6h30 da manhã. Chegámos de Cabo Verde e para variar ninguém nos veio buscar. Desta vez foram 15 horas em aeroportos. Estamos um pouco moídas das costas e das pernas e dos braços e o cérebro está em banho-maria. Sentámo-nos e esperámos que, quem acordou chegue para a boleia sagrada. À nossa volta as caras são frias e sisudas. Aqui é mais fácil as pessoas se deixarem congelar… Fico com uma certa pena porque a vida é p’a gente se rir até ficar sem saliva..depois dá-se beijo na boca e pronto. Com um instrumento que a Joana comprou lá longe, começo a tocar, cantando baixinho uma letra de embalar. A uns metros oiço o “balançar” de uns caboverdianos a sorrirrrrr…..aaaai ki kalô. Gostava de os encontrar no pólo norte a ver se aqueço por telepatia ou simpatia.
O Álvaro de Campos dizia que mal se chegasse a um sítio novo deveria (d)escrever-se o que se sentia porque as sensações vão-se com o habituar dos sentidos. E que sentidos senti eu em Lisboa. ADORO esta cidade fria e escaldante.


Na baixa há cumplicidades fora e dentro de janelas indiscretas.


Vão juntos a passo rápido pelos corredores do esbanjamento.
Bom Natal digo para a senhora que me acabou de dar o troco, não há grande entusiasmo na resposta, há o peso de aturar estas massas famintas.
Há que sorrir.

Este ano o Natal é azul em Lisboa. A cidade é sobrevoada por anjos da optimus e bolas da TMN numa circunvalação iluminando o Marquês. Na Av. da Liberdade choram-se lágrimas…azuis. Deve ser para condizer com os portugueses. Choram, mas com estilo e já agora ao som de “Blue Velvet”.
Este ano, às 7 da manhã na Graça, descobri que o pai natal é talhante em horas vagas. Todos este anos a lembrar as renas a voar pelas montanhas e afinal…

Feliz natal Martim Moniz e arredores! Se não fosses tu não tinha arranjado as prendas mais estrambólicas para a minha família. No Martim existe a congregação comercial da China, Índia e algumas Áfricas, sem esquecer os nómadas Ciganos. Todos eles sobre o manto misterioso dos sacos de plástico pretos.

Este ano promete. Cada um leva a sua prenda com o carimbo registado “Feita para ti” ou “Made for you”. No ano passado lembro-me da minha mae, que é a branca de neve da Antártida, parecer um tomatinho maduro de tanto rir com um gorro na cabeça que lhe ofereci. Ela é assim pequenina, por isso os acessórios de criança ficam-lhe a matar.

Gostei muito destes dias. Adeus ceú azul e calçadas brancas. Já fiz o check out e esperam-me kilómetros de mar com baleias felizes por me ver.
“…o nosso mundo, aparentemente uma aldeia global, é, na realidade, um planeta composto por milhares e milhares de províncias diferentes e que nunca se encontram. Uma viagem pelo mundo é, de facto, uma viagem de uma província para outra, sendo cada uma destas províncias uma estrela solitária que brilha apenas para si própria.
Para a maioria das pessoas que lá vivem, o mundo real termina na soleira da sua porta, no limite da sua aldeia, na melhor das hipóteses na fronteira do seu vale.
O mundo que fica para além disso parece-lhes irreal, sem importância e desnecessário, enquanto o pequeno mundo em que vivem assume proporções de cosmos, gigantesco e ofuscante.

Muitas vezes é difícil para o indígena e o forasteiro encontrar uma linguagem comum, porque cada um utiliza uma lente diferente ao contemplar o mesmo panorama.
O forasteiro recorre a uma lente de grande alcance, que dá uma imagem distante e redutora, mas que, em compensação, mostra claramente a linha do horizonte, enquanto o seu interlocutor indígena usa sistematicamente uma teleobjectiva ou mesmo um telescópio, que amplia tudo até ao mais ínfimo pormenor.”
R. Kapuscinski, Ébano
Mais do que livros de histórias
Dezembro 17, 2008
Ver de perto as coisas, sentir de olhos fechados o calor, deixar o cheiro entranhar-nos é outra coisa.
A primeira vez que vi a Sé de Lisboa, sem ser nos livros, o ar correu-me mais pesado, como quando recordámos um acidente vemos tudo em slow motion.

Nem nos livros nem ao vivo se vê o sangue a escorrer em fios vermelhos pelas costas esfoladas aqui no pelourinho. Não se vê mas estão lá. As almas estão aqui para se fazerem valer, iluminando para quem quiser ver o seu leito de morte. Foi aqui que nasceu Cabo Verde
RebelArte Abre-te os Olhos
Dezembro 10, 2008
Hoje em dia o culto dos Rabelados não tem nada a ver com a imagem.
À entrada pedimos a bênção aos mais velhos. Sentámo-nos um pouco antes de começar a filmar. O “líder” sentado de frente para todos, lê a bíblia, com erros e gaguejo. As pessoas benzem-se em frente à cruz de madeira antes de se sentarem aleatoriamente nos bancos em volta. Falam entre si sobre a vida, o calor, nós ali. Numa parede há um recorte de jornal com a imagem do Amilcar Cabral – a identicação justifica-se pela luta ser, em parte, a mesma – a liberdade. O PAIGC existiu, na sua plenitude, durante algum tempo mas só na cabeça de alguns. Hoje os rabelados simpatizam com o MpD – Movimento pela democracia – a oposição – porque eles são bons p’ra nós. (…)
Os mais novos não parecem muitos crentes na crença dos mais velhos.
A luta pela liberdade aconteceu há muito, e agora, depois de conquistada, parece que a força desse tempo ficou lá…nesse tempo.

Apesar de sentir que, aqui, o tempo parou no tempo, esse sentimento transformou-se ao ver que a arte subiu às montanhas.
Homens e mulheres estilizados em cores planas desengonçados em gritos de sexo lambido à dentada. Há loucura nestes registos.


Felizmente há Meio Luar
Dezembro 9, 2008
Este fim de semana foi dedicado aos Rabelados do Espinho Branco – algures no norte da ilha. ‘E aqui que vive uma comunidade que se uniu contra o novo sistema de ensino da religião católica, imp0sto pelo governo colonial português, nos anos 40. Devido às perseguições no passado, vivem nas montanhas.

Não querem nada a ver com o Estado, são ultra-conservadores, vão ao hospital só em emergência e nenhum deles tem nome próprio, são todos Rabelados – Rebelados em português. Hoje, não vimos nada disso.
Actualmente estes dois mil Rabelados Moderados ouvem rádio a pilhas, vestem roupa do chinês e como bons caboverdianos suam Morabeza por todos os poros.
O pessoal da Tiver foi lá gravar umas entrevistas para o “Pessoas com História”. Eu e a Joana aproveitámos a boleia. A viagem na parte de trás do jipe foi tranbulástica, o meu pequeno almoço quis tantas vezes sair de mim mas não deixei.
Fomos numa de entrar na vida desta gente e tentar perceber o que se passava depois de tantos anos isolados, por isso, fez muito sentido passar lá o fim-de-semana.
Não me apetecia entrevistas controladas, etc e tal. Não fui lá em trabalho. Ninguém precisava de mim, por isso tomei a liberdade de ir andando.
Vi ao longe um pessoal simpático e como quem diz olá, cheia de sono, perguntei se havia café. Disseram que sim, contentes por partilharmos o mesmo gosto. É aqui no forno que fazemos.

Não queria acreditar, depois de quase um mês na cidade sem café, venho às montanhas e vou beber um copo cheio, feito debaixo de fogo de lenha, moído e filtrado a braços.
O krioulo deste pessoal é mais cerrado, a nossa comunicação cinge-se a poucas palavras, desenhos na terra, gestos e a momentos de partir a rir com tudo isto junto.
Digo que vou dormir aqui esta noite, interrompem-me, dormes aqui conosco!
Moram nestas casas que são feitas com o método “djunta mon” que vem ser junção da força dos braços de todos.

As mulheres fazem a lida…

Entretanto vou ver os animais
in the farm

Só pensava como eles íam comigo no avião e na cara da minha mãe, habituada à adopção de animais encontrados.

Balançando montanha acima num tremido equilíbrio em pés descalços de mulher valente.


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São sete e meia da noite e estamos quase sem luz. Temos cinco convites para jantar e nenhum argumento contra. Acabámos por ir à casa do senhor que entrou no documentário. A distância entre as casas ainda é grande e a esta hora os cães tornam-se mais protectores. Felizmente temos um guia. Há katxupa pobre à luz da vela em pratos de lata molhados e colheres gordurosas. Faz tudo parte e a fome aperta. 





















