C’est la mort.
Novembro 29, 2009
as despedidas além de activarem o sistema lacrimal, provocam-me indisposições gástricas.
Depois daquele lagaçal, no dia em que fui estudar pela primeira vez para Lisboa, onde foram TODOS ao aeroporto, falharam-me as forças das pernas que carregavam aquelas malas e a vista cheia de água a desvanecer a imagem daquele grupo de familiares a olhar-me tristinhos, senti desespero! Tirem-me deste filme e dêem-me a velocidade da luz!
depois disto
o meu pai levava-me ao aeroporto e não saía do carro. Estava tudo bem com a bagagem, óptimo, dava-lhe um beijo, estamos aqui à tua espera dizia-me ele. aquelas palavras terrivelmente dramáticas, naquele específico momento, baixaram-me os olhos e por milagre da nossa senhora das águas, as lágrimas não caíram. Não quero velórios. Não quero os meus pais mortos. Já lhes disse tanta vez adeus. Vou ver a minha avó, porque ela na verdade já morreu e eu já a velei muitas vezes até. No início assustava-me ao passar no quarto e não ouvir o respirar baixinho. Outras vezes entrava por a ouvir gemer demasiado. Agonias, falta de respiração. Vó tens de respirar fundo, vá faz comigo. Isso é dos nervos, fica calma, foi o médico que me disse sabias? Foi? Oh Andreia, eles vão ficar todos com ciúme desses carinhos que me dás. É Andreia que te chamas, não é? Estou preparada para a ver pálida de olhos fechados. E também preparada para comer no prato onde acabei de atirar esta frase. Seja como tiver de ser quero ver e sentir a diferença entre esse quase morrer e o morrer mesmo. ficar sem ar com a morte, fazer-lhe mimos e ver de esguelha todos com ciúme.
love without questions
Outubro 13, 2009
“Na infidelidade não há abandono ou troca. Na traição há o comando do coração que tudo arrasta com ele. Não há maneira de o travar ou convencer. Ganha direitos, faz público o que era secreto, ignora os filhos, desmorona a casa, devora a herança. Mas a infidelidade é outra coisa. É um acto de cultura, porque dá experiência moral, altera a paisagem, renova as paixões, ilustra o sentimento e não banaliza o amor. Há mais casamentos que devem a sua constância à infidelidade do que se pode supor.”
Um cão que sonha – Augusta Bessa Luis
Feels good
Outubro 6, 2009
Aconteceu uma filtragem involuntária: o telemóvel descolou-se em dois bocados, mais ou menos involuntária (deixei-o cair 523 vezes), todos os contactos foram à vida e agora livrei-me de ter que conviver com todos os números dos nomes que eu não me lembro quem são.
“Oh se eu ao menos pudesse ter uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos”
John Keats
This games that i play are all in my head
Setembro 23, 2009
Pixies go with Buster Keaton
Setembro 20, 2009
and i go with Pixies everywhere!
I’m a sweetheart lonesome tonight
Setembro 14, 2009
adoro este estado de tristeza estúpida ou triste estupidez.
lentamente ansiosa, quase sonolenta mas… é tudo tolice, daquela que nem dá pa reciclar:
i have no pain it’s just my youth screaming for life forever
oscilando a cada segundo o balde cheio derrama devagarinho
tenho sono mas está calor e ando meio nua pela casa, descalça de ventoinhas ligadas, estupidificando-me em frente ao espelho
give me summer…Felizmente o tempo mudou e vamos ter sol até Novembro (just a feeling)
uma noite de sono e tumba, cai o balde de vez
vazio pronto pa amanhã
até amanhã
Falta de pé
Setembro 3, 2009
Debaixo das ondas o som do corpo submerso arrefece-me os sentidos, esqueço-me da tesoura que retira grão a grão a areia da frecha. Acabei de chegar à ilha do sol e num baptismo de tribo sem nome fiz um corte de cima abaixo na planta do pé. Apesar de estar nem aí, nesta situação o meu andar adquire comportamentos de sedução, involuntária portanto, atraíndo olhares que após uns segundos se transformam solidários dada a minha destoante ligadura banhada a areia fresca. Pensei em cortar o pé, como num corpo de boneca, sem cicatrizes. Concerteza ficaria com um andar ainda mais sexy, anca acima e abaixo, subindo degraus em piso horizontal mas depois o pé não crescia como as unhas e teria de arranjar pernatos (extensão da perna) adequados para a minha falta de pé, melhor pepatos. Torta no mar ou na piscina ficaria, mais rapidamente com menos pé em metade do corpo apoiado pela minha outra perna, a eterna bengala musculada com o tempo. Desequilibrada literalmente como faria o pino? E escalada? Excluída essa inclinação, voltando à sensação do corte: um saco de plástico serviu para uma viagem sem medo até à água. O saco desfez-se em dois tempos, dois passos, assim desnuda surge um gentil tarzan que a braços me carregou à toalha…um verão assim não se repete, já dizia o outro.
Mensagens para um alvo atento e suspeito, naturalmente
Agosto 5, 2009
Olhar para uma única macia maçã funciona em mim como 2 goles de whisky velho – o mundo torna-se num lugar maravilhoso.
Embrieguei-me num sonho profundo com risos atrapalhados de quem faz amor pela primeira vez. Imaginação é tecido flexível que se molda consoante as vontades e as experiências que se vai sentindo numa alegre transformação. Nem o céu é o limite, podíamos ter feito na lua mas aqueles fatos não davam muito jeito mas também sem eles não teríamos ar para suar e gargalhar ou, plo contrário, o nosso ar era suficiente para encher a lua e fazer crescer relvinha com tanto oxigénio.
Posso apanhar maçãs de manhãzinha e ao final da tarde, à noite não, ficam guardadas dos dentes do meu sorriso rasgado.
Inspira
Julho 28, 2009
Não há legislação para a música como não há legislação para a doença. A natureza é ilegal e bruta e nós não somos natureza enquanto estamos vivos e ricos, com o corpo esquecido. Mas quando somos velhos somos natureza e quando estamos doentes somos natureza, e quando morremos somos ainda natureza.
E não ter dinheiro é isso: é ser mais natureza, estar mais dependente da falta de legislação que há na música e nos bichos: as coisas escuras amedrontam, tornam-te cobarde, escondes os teus filhos atrás do teu corpo, mas sabes que a bala virá por trás.
Gonçalo M. Tavares